Segui por Email

domingo, 24 de maio de 2009

Profetas menores: Obadias

Obadias, o crítico

I - O Livro - Obadias é o livro mais curto do Velho Testamento, tendo apenas 21 versículos. Não é citado no Novo Testamento e neste não há referência alguma a Obadias. Mesmo sendo breve, Obadias é um livro difícil, com uma dificuldade nada proporcional ao seu tamanho.
II - O Autor - Obadias não tem uma história pessoal. Sem dúvida o seu nome, cujo significado é “Adorador de Javé”, é sugestivo. Esse era um nome muito comum entre os semitas, especialmente após o cativeiro. Compare-se com Abdiel “Servo de Javé” (1 Crônicas 5:15) e com Abdala (nome árabe), que significa “Servo de Deus”. Esforços têm sido feitos no sentido de identificar o profeta Obadias com alguns outros homônimos, em número de doze ou mais, no Velho Testamento, como por exemplo:
1. Obadias, o mordomo do palácio de Acabe, o qual escondeu os profetas de Javé em duas covas - cinqüenta em cada cova (1 Reis 18:3-6).
2. Obadias, o mestre da Lei enviado por Josafá entre as cidades de Judá (2 Crônicas 17:7).
3. O “homem de Deus” no tempo de Amazias, o qual aconselhou o rei a não permitir que o exército de Israel do Norte o acompanhasse na luta contra os edomitas (2 Crônicas 25:7).
4. Obadias, um dos superintendentes empregados no reparo do templo, sob o reinado de Josias (2 Crônicas 34:12).
Para o nosso profeta, sem dúvida, “sua obra era mais importante que o obreiro e por causa dessa obra ele permitiu que a sua personalidade fosse relegada ao fundo”.
III - A Mensagem - Toda a mensagem de Obadias pode ser resumida em duas frases: 1. A destruição de Edom (versos 1-16). 2. A restauração de Israel (versos 17-21). Sem dúvida o profeta dirige suas palavras, não tanto como uma admoestação a Edom, mas como uma mensagem de consolo a Israel. O livro pode ser assim dividido:
1. A ruína de Edom, mesmo estando abrigada com segurança em meio às serras rochosas (Versos 1-9).
2. Os motivos, isto é, a sua crueldade com Israel e o seu regozijo pela adversidade de Judá (Versos 10-14).
3. A retribuição divina a Edom e a restauração de Israel.
IV - Data - Visto como o livro não é introduzido com uma data histórica ou cronológica, o que permitiria determinar a sua data, precisamos nos valer das evidências internas. Desse modo, muitas datas divergentes têm sido sugeridas, datas que se estendem desde o tempo de Jorão, rei de Judá (850 a.C), em cujo reinado os filisteus e árabes atacaram Jerusalém, tendo levado os tesouros do palácio real (2 Crônicas 21:16-17), até 312 a.C, quando os nabateus tomaram Edom e Antígono ordenou que fosse enviada uma expedição contra eles. Vários fatores entram na decisão deste assunto:
1. O lugar de Obadias entre os Doze - No Hebraico ele é o quarto, seguindo esta ordem: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, etc. No Grego ele é o quinto: Oséias, Amós, Miquéias, Joel, Obadias, Jonas, etc. Isso mostra claramente que os organizadores do Cânon (200 a.C) consideravam Obadias como primitivo.
2. A unidade do livro - sacrificada pelos que o colocam depois. Contudo pode ser possível o caráter composto de um livro, mesmo tão curto, como é o caso deste.
3. O caráter vivo dos versos 10-14 – os quais parecem descrever como história a destruição de Jerusalém por Nabucodonosor, em 586 a.C. Elmslie diz: “Não é apenas um estado arruinado, ou uma capital parcialmente saqueada que aqui têm sido descritos, mas uma nação desmembrada, despojada e dispersa”. Claro que não se trata do juízo universal. O teólogo Pusey, por exemplo, crê que estes versos são uma predição, em vez de uma descrição da ruína de Jerusalém. Outros acham mais apropriado um lugar apropriado para estes no reinado de Acaz (731 a.C), quando freqüentes calamidades sobrevieram a Judá:
1. - Rezim, rei da Síria, livrou Elate dos judeus, lançando-os para fora e permitindo que os edomitas ali residissem (2 Reis 16:6 - Septuaginta).
2. - Peca, rei de Israel, matou 120 mil judeus e levou 200 mil em cativeiro (2 Crônicas 28:6-8).
3. - Zicri, homem poderoso de Efraim, matou Maasias, o filho do Rei (2 Crônicas 28:7).
4. - Os edomitas vieram a Judá e levaram presos em cativeiro (2 Crônicas 28:17).
5. - Os filisteus também invadiram várias cidades da campina e do sul de Judá (2 Crônicas 28:18).
6. Acaz tomou até os tesouros do templo, a fim de pagar tributo ao rei da Assíria (2 Reis 16:8).
Sem dúvida, condições como estas podem muito bem explicar a descrição feita por Obadias da calamidade de Jerusalém como “infortúnio”, “ruína” e “angústia” (Verso 12). É bem provável, portanto, que essa profecia tenha sido feita no século 8.
V - Edom - Como já foi dito, Obadias profetizou a respeito de Edom e mais particularmente contra a cidade rochosa de Edom, conforme o verso 3: “A soberba do teu coração te enganou, como o que habita nas fendas das rochas, na sua alta morada, que diz no seu coração: Quem me derrubará em terra?”
As rochas a que ele aqui se refere são quase na certa as de Petra, a qual, desde os tempos mais remotos, era a fortaleza central da nação. Os árabes modernos a chamam de Wady Musa. Os antigos sírios, segundo Josefo, a chamavam de Requém, por causa de Requém, o príncipe midianita que caiu numa batalha contra Israel, em Moabe, nos dias de Finéias, [quando também foi morto Balaão, o profeta filho de Beor] (Números 31:8). Pela sua situação e beleza natural, Petra é única entre todas as outras cidades da terra. É quase impossível descrevê-la adequadamente. Sua situação bem abaixo e em meio às montanhas de Seir, rodeada de todos os lados por rochas coloridas, de uma beleza e grandeza inigualáveis, fizeram de Petra uma das maravilhas do deserto. Nela se entra por uma garganta estreita, com mais de um quilômetro de extensão, chamada Sik ou fenda. Esse desfiladeiro é uma das avenidas mais formosas e românticas do gênero em toda a natureza, com um pequeno arroio ao fundo, em quase toda a sua extensão. A garganta é estreita e profunda, sendo por vezes tão reduzida que fica quase às escuras em pleno meio dia. As rochas que a limitam são formosas, ostentando quase todas as cores do arco-íris. Ao sair da mesma, em grande planície (com mais de um quilômetro de extensão por 2/3 de quilômetro de largura), o explorador se depara com moradias cortadas na rocha, sepulcros, templos e outras escavações, por todos os lados. Centenas destes em sua maior parte são, de fato, mausoléus originais, cortados literalmente na sólida rocha granítica. As ruínas de um castelo, de edifícios e dos arcos de uma ponte, além de colunas, são vistos espalhados ao fundo do sítio da cidade. As cores das rochas aumentam imensamente o atrativo do local. A natureza tem organizado em faixas alternadas as cores mais belas, tais como o roxo, púrpura, alaranjado, amarelo, branco, lilás e outras cores, as quais se matizam artisticamente entre si, fazendo ondulações com esplendorosas e fantásticas figuras causadas pela filtração dos óxidos e ferro, manganês e outras substâncias, as quais, com freqüência produzem nos granitos variedades de cores e uma formosura especial. A cidade inteira e seus arredores formam um imenso labirinto de montanhas e rochas, escavações, gargantas e vales estreitos, planícies e mesas, pequenos vales sombreados e alegres promontórios, tudo muito grandioso e belo. Aqui se tem justamente um ideal de beleza e proteção que pode satisfazer qualquer nômade oriental, como uma fortaleza de tráfico e comércio.
Infelizmente, reina agora uma desolação dentro e ao redor de Petra, e por todos os lados, o que tem atestado tristemente as admoestações de Obadias.
VI - Ensinos - Não seria de esperar que um livro tão curto pudesse ensinar tantas lições de enorme valor. Podemos mencionar três:
1. A admoestação do profeta contra o escárnio (verso 12) - O escárnio se origina no orgulho. Quando zombamos dos outros, revelamos o espírito orgulhoso que existe em nós. O escárnio revela falta de amor fraternal e com freqüência pode evidenciar um verdadeiro ódio. Edom e Israel se menosprezavam e odiavam mutuamente em toda a sua história. Durante vários séculos a inimizade entre ambos foi implacável.
2. Sua doutrina da estrita retribuição - (Versos 10-15) - Obadias ensinou com ênfase especial o caráter indestrutível do juízo eterno. O “Dia do Senhor”, disse ele, virá sobre Edom: “Porventura não acontecerá naquele dia, diz o SENHOR, que farei perecer os sábios de Edom, e o entendimento do monte de Esaú? E os teus poderosos, ó Temã, estarão atemorizados, para que do monte de Esaú seja cada um exterminado pela matança” (Versos 8 e 9). E “Por causa da violência feita a teu irmão Jacó, cobrir-te-á a confusão, e serás exterminado para sempre ... Porque o dia do SENHOR está perto, sobre todos os gentios; como tu fizeste, assim se fará contigo; a tua recompensa voltará sobre a tua cabeça” (Versos 10,15).
3. Sua segura esperança de que há de chegar uma Era de Ouro para Israel: “Mas no monte Sião haverá livramento, e ele será santo; e os da casa de Jacó possuirão as suas herdades” (Verso 17).
Finalmente lemos no verso 21: “E subirão salvadores ao monte Sião, para julgarem o monte de Esaú; e o reino será do SENHOR”. Edom subjugada seria uma Edom incorporada. Essa promessa constitui o lado brilhante do “Dia do Senhor”, assinalando toda a consumação da história da humanidade. Aqui o profeta estende suas predições originais de catástrofe sobre Edom, incluindo escatologicamente “um juízo universal sobre todos os pagãos e a conseqüente restauração de Israel”. Esta é a palavra final, não só de Obadias, mas de toda a profecia bíblica. É realmente um vislumbre do reino messiânico, pelo qual ansiavam todos os profetas, sendo também uma interpretação da consciência de Israel.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Profetas Menores: Jonas

Jonas, o profeta universal

O livro de Jonas é quase totalmente biográfico, havendo, à parte de sua oração no capítulo 2, apenas uma declaração que se possa chamar de profecia (Jonas 3:4). As experiências pessoais dos outros profetas são, às vezes, narradas em seus livros (Comparar com Oséias 1:3; Amós 7:10-15 e Jeremias 1:25-29; 36-38), mas nenhum como em Jonas.

I - O homem e sua história - Jonas é identificado por quase todos os eruditos como “Jonas, filho de Amitai”, o qual profetizou a Jeroboão a restauração de Israel aos seus antigos limites (2 Reis 14:25). Sellin declara, sem hesitação nem modificação: “o herói da narrativa é um personagem histórico, que viveu no tempo de Jeroboão II, pouco antes de Amós”. Sua identificação parece estar assegurada, visto que, tanto o nome de Jonas como o de seu pai, não são mencionados em outra parte do Velho Testamento. Ele era natural de Gate-Hefer, na Galiléia, que distava 7 Km. de Nazaré, conhecida pelos árabes modernos como el Meshed (2 Reis 14:25).
Quando Jonas foi chamado por Javé para ir a Nínive, a fim de ali pregar, essa tarefa foi-lhe tão repugnante que ele fugiu “da presença do Senhor” (Jonas 1:3,10), indo para Tarsis, ao sudoeste da Espanha, abandonando sua obra profética. Acredita-se a que Jonas, nesse tempo, já era avançado em idade quando teve o chamado à Nínive.
Mais adiante, na história, é dito francamente o motivo de Jonas para viajar até o Ocidente, aventurando-se no mar, o que era evitado pelos hebreus, em vez de ir para o Oriente: “E orou ao SENHOR, e disse: Ah! SENHOR! Não foi esta minha palavra, estando ainda na minha terra? Por isso é que me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal” (Jonas 4:2). Sem dúvida ele havia ido a Nínive para certificar-se de que Deus iria realmente destruir aquela cidade. Jonas não podia entender porque Deus desejava que ele pregasse a um povo que queria devorar Israel.
Indo a Jope, o principal porto de mar da Terra Santa, ali encontrou um navio que se fazia ao mar, rumo ao Ocidente. Pagou a passagem e embarcou, descendo até o porão, onde foi dormir. Sua consciência também ficou adormecida porque Jonas se enganava, achando que logo estaria longe de Deus.
O mar se enfureceu. Cada marinheiro orava ao seu próprio deus, mas a tempestade continuava. Concluíram, então, que algum deus devia estar ofendido. O piloto do navio foi até Jonas e ordenou-lhe que clamasse ao seu Deus. Os marinheiros, convencidos da existência de algum culpado a bordo, lançaram sortes e esta recaiu sobre Jonas. Perguntaram-lhe ansiosamente de onde ele era natural, qual era a sua ocupação, qual era o seu povo e Jonas confessou francamente que estava fugindo “da presença do Senhor”. Naquele momento ele era apenas um pagão naquele navio. Contudo, redimiu-se ao dizer, voluntariamente, que deveriam lançá-lo ao mar, para conseguirem ser salvos: “Então clamaram ao SENHOR, e disseram: Ah, SENHOR! Nós te rogamos, que não pereçamos por causa da alma deste homem, e que não ponhas sobre nós o sangue inocente; porque tu, SENHOR, fizeste como te aprouve. E levantaram a Jonas, e o lançaram ao mar, e cessou o mar da sua fúria” (Jonas 1:14-15). Vendo isso, os marinheiros ficaram tão impressionados que “ofereceram sacrifício ao Senhor e fizeram votos” (v. 16).
Dois pequenos versos resumem a história do resgate de Jonas (Jonas 1:17; 2:10). O Senhor preparou um grande peixe para engolir Jonas e nas entranhas deste ele ficou “três dias e três noites”. Duas colunas perto de Alexandria, ao norte de Antioquia, na costa Síria, assinalam o local onde, segundo a tradição, Jonas foi vomitado à terra seca. Contudo Josefo diz que isso aconteceu às margens do Mar Egeu.
Ao chegar em Nínive, entrando nas ruas de Nínive, Jonas começou a clamar: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida” (Jonas 3:4).
Só podemos imaginar com que prazer o vingativo profeta anunciou essa admoestação. Claro que alguém poderia imaginar que Jonas pronunciou essas palavras solenes como um austero pregador. Jonas falou apenas cinco palavras . Contudo essas eram palavras de condenação, tendo causado grande impacto, a ponto dos ninivitas se arrependerem e em conseqüência proclamarem um jejum e se cobrirem de sacos, em sinal de arrependimento, o que levou Deus a se arrepender do mal que lhes tinha anunciado, não o tendo feito (Jonas 3:5-10).
Jonas se irritou com a protelação do Senhor em executar juízo contra aquela cidade má. Ficou revoltado, não por sentir-se desacreditado aos olhos humanos dos ninivitas, nem porque sua posição de profeta fosse arruinada pelo fracasso de sua pregação, mas pela clemência Divina em favor de Nínive. Por que continuaria Deus perdoando uma cidade que vivia prejudicando Israel através da guerra e da exigência de tributos cada vez mais pesados?
Por sentir que Deus havia perdido a oportunidade de destruir Nínive e que, por causa disso, o seu próprio povo, mais cedo ou mais tarde, seria condenado à destruição. Melhor seria morrer, diz ele, do que viver mais tempo neste mundo governado por um Deus assim. Em seu desgosto Jonas se assemelha a Elias (1 Reis 19:1-18).
Jonas esperava ver Nínive destruída, aguardando o desfecho lá de cima de um monte, a leste de Nínive, onde fazia muito calor. O Senhor admoestou-o contra a sua ira, mas em vão. Para se proteger do cansaço do calor, Deus fez crescer sobre a cabeça de Jonas, com extrema rapidez, uma aboboreira , com o que Jonas muito se alegrou. Porém, com a mesma rapidez, Deus enviou um verme, o qual feriu a aboboreira e esta se secou (Jonas 4:7). Por causa dessa fatal calamidade Jonas se irou novamente e desmaiou, desejando a própria morte (v. 8). Ele havia se irado porque Nínive fora perdoada e agora se irava porque a aboboreira não fora perdoada. O Senhor lhe responde, comparando a aboboreira à cidade e comparando a compaixão e solidariedade de cada um consigo mesmo, terminando, assim, a história (vs. 9-11).

II - Os tempos do profeta - Como sabemos, Jonas viveu no tempo de Jeroboão II, rei de Israel do Norte, o qual reinou de 790 até 750 a.C. Jeroboão recebera um reino fraco porque desde o tempo de Jeú, seu bisavô, o povo vinha pagando continuamente tributos à Assíria. Sob Jeroboão, sem dúvida, o povo começou a recobrar suas forças anteriores. Ele tomou Hamate e Damasco, restaurando a Israel todo o território que se estende desde Hamate até o Mar Morto, conforme Jonas havia predito (2 Reis 14:25). Em verdade Jeroboão foi o mais poderoso de todos os monarcas que se sentaram no trono de Samaria e havia muitas esperanças de prosperidade quanto ao futuro do reino.
Na Assíria, contudo, as condições prevalecentes eram justamente o oposto. Tudo era desanimador, com a Assíria perdendo terreno. Em outras palavras, Israel crescia, enquanto a Assíria declinava. Foi nessa cidade, portanto, e em tempos muito desanimadores para a Assíria, mas não para Israel, que Jonas foi comissionado a pregar.

III - Análise do Livro - As divisões em capítulos assinalam as suas divisões naturais.
Cap. 1 - A desobediência de Jonas, o qual “fugiu da presença do Senhor”.
Cap. 2 - Sua oração ouvida por Javé.
Cap. 3 - Sua pregação em Nínive -Jonas levantou-se e foi a Nínive.
Cap. 4 - Suas queixas culpando o Senhor.

IV – Os dois grandes milagres -

1. - O grande peixe – A questão não é se pode existir um peixe desse tamanho, a ponto de tragar um homem sem o mutilar. Tubarões gigantes brancos têm sido capturados e a baleia conhecida tecnicamente como “catodon macrocephalus”, a qual poderia tragar não apenas o profeta mas até cavalos. Por exemplo, aquela que foi capturada na costa da Flórida, em 1912, a qual se encontra no museu do Instituto Smithsoniano, em Washington, D.C., com 14,4 metros de comprimento, pesando 14,8 toneladas, e que tinha no estômago, ao ser capturada, um peixe de, aproximadamente, 680 Kg.
É de muito maior importância a questão de como o profeta continuou vivo nas entranhas de um peixe, por três dias e três noites. Ao citarem-se analogias, dão-se explicações. Outro exemplo é o caso do marinheiro que em 1758 caiu de um barco no Mediterrâneo e foi tragado por um tubarão, o qual, por sua vez, ao ser ferido por uma bala de canhão, o vomitou são e salvo. Também existe o caso de um índio tragado por um tubarão e encontrado ainda com vida, após ter sido o animal capturado e aberto, tendo o índio falecido logo depois. O finado professor Macloskie, de Princeton, explicou o caso especial de Jonas, supondo que o profeta “ficou na cavidade da laringe, onde podia respirar mais facilmente do que se estivesse no estômago, onde, provavelmente teria sido sufocado”.
Contudo, essas explicações apologéticas do fenômeno são complicadas e muitas delas descabidas. Porque ou o incidente é histórico e, portanto, um milagre genuíno, ou é uma anedota oriental sem fundamento algum, não proposto nem ensinado. A declaração de que Jonas esteve no ventre do peixe por “três dias e três noites” é a maneira oriental de expressar o fato de que ele esteve tanto tempo dentro de um peixe e que, se não fora pelo poder sustentador de Deus, estaria morto e fora da possibilidade humana de ser restaurado à vida). Penso que o autor, pensava representar a conservação de Jonas na morte ou o seu regresso à vida, como algo sobrenatural.
2. - A conversão de Nínive - Está é a maior maravilha das duas. A do peixe era física, esta é moral. Para muitos a idéia de que uma grande cidade se arrependeu, de repente, através da pregação de um hebreu estrangeiro, é inacreditável. Nínive tinha sido construída com despojos de guerra. Era populosa, tendo mais de 600 mil habitantes [dos quais presumivelmente 120 mil crianças] (Jonas 4:11). Também era opulenta, orgulhosa e bem fortificada. Seus muros tinham por volta de 30 metros de altura. Dentro de sua área havia hortas e jardins e talvez até prados para o muito gado (Jonas 4:11).
Nínive também é descrita como uma cidade “de três dias de caminho” , uma expressão tipicamente oriental. Nada tem a ver com o diâmetro ou com a circunferência da cidade. Nínive é descrita como tendo 480 estádios, cerca de 96 Km. As cidades orientais em geral são construídas de maneira muito compacta. O fato é mais bem referido pela necessidade de três dias para ser visitada em todos os seus pontos principais e de interesse. Por exemplo, um natural da Palestina iria responder, atualmente, do mesmo modo.
Entrando em Nínive, “caminho de um dia” (Jonas 3:4), Jonas começou a pregar e através de sua severa e misteriosa mensagem de arrependimento logo aconteceu um pânico generalizado. Jonas mostrava no semblante o ardor do sobrenatural. Depois daquela experiência no mar, provavelmente ele pregou como alguém que fora levado à morte. Sem dúvida o seu rosto resplandecia com a glória de Deus, como o de Moisés. Seus olhos brilhavam na fronte sisuda, enquanto seus lábios clamavam: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida!” (Jonas 3:4).
Os ninivitas eram ignorantes e supersticiosos, especialmente nesse período em que a rebelião era crônica. Muitas de suas províncias e a cidade estavam sempre em perigo de sitiadores, que poderiam chegar aos seus portões, a qualquer momento, daí ficarem facilmente amedrontados. Em geral é fácil amedrontar os orientais até o ponto em que se tornam fanáticos, anunciando a vinda de algum juízo que seja temido.
Assim, a admoestação solene e imperiosa de Jonas, pronunciada em tons veementes e impetuosos, como o breve sermão de Pedro no Dia de Pentecostes, despertou a consciência adormecida dos ninivitas, que ficaram tomados de pânico pelo temor da iminente calamidade. E logo foi proclamado um jejum e que se vestissem de sacos (Jonas 3:5). E quando o rei ouviu o que acontecia, “levantou-se do seu trono, e tirou de si as suas vestes, e cobriu-se de saco, e sentou-se sobre a cinza” (v. 6)..
O arrependimento dos ninivitas não foi, imagina-se, um arrependimento no sentido cristão. Foi como o de Jonas no navio, temporário e superficial, gerado apenas até onde chegava a sua capacidade intelectual e religiosa, o qual perdura somente enquanto existe o medo. Seu único argumento foi: “Quem sabe se se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos?” (Jonas 3:9).

V - O emprego de Jonas por Jesus - Nos sinóticos é dito duas vezes que os escribas e fariseus suplicaram que Jesus lhes desse um sinal de sua condição messiânica e Ele contestou por duas vezes, citando-lhes o caso do profeta Jonas e sua pregação em Nínive (Mateus 12:38-42 e 16:4; Lucas 11:29-32). É possível que o uso deste livro feito por Nosso Senhor possa ajudar-nos a interpretá-lo. É estranho que tantos expositores modernos ignorem por completo essa possibilidade. Naturalmente vamos fazer duas perguntas: a) - Do que buscavam os escribas e fariseus um sinal? Do seu caráter, missão, pretensões messiânicas, o seu direito como judeu de pregar uma redenção universal sobre a base do arrependimento. Ou do que? b) - Em que sentido Ele dava a entender que nenhum sinal lhes seria dado a não ser o do profeta Jonas?
Jesus repreende os escribas e fariseus por insistirem em provas externas. Como Ele sabia, é raro convencer homens que não têm a luz em si. E o próprio Jonas não fez milagre.

VI - Ensino permanente - O autor do Livro de Jonas ensina a teologia mais sublime do Velho Testamento. Na generosidade, no amor pela humanidade e na apreciação do caráter de Deus, este livrinho é preeminente como o mais nobre, o mais liberal e o mais cristão de toda a literatura do vetero-testamentária. Ele contém uma verdade muito avançada para a época de Jonas, verdade que não perderá o valor, enquanto os homens tiverem coração e apreciarem o evangelho.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Profetas Menores: Miquéias

Miquéias, o profeta dos pobres

I - Nome – Miquéias teve um nome que por si mesmo era um credo, pois a forma mais ampla e provavelmente mais antiga - Mikayahu - significa “Quem é semelhante a Javé?” (Mq. 1:1; 7:18; Jr. 26:18). Como Miguel, que significa “Quem é como Deus?". Miquéias tem quase o mesmo significado.
Nosso profeta não deve ser confundido com Micaías, que era detestado por Acabe (1 Reis 22:8).
II - Lugar - Ele é chamado “morastita” (1:1), visto ter nascido em Moreset-Gat (Mq. 1:14), local situado 32 Km. ao sudoeste de Jerusalém. Jerônimo colocou Moreset a leste de Eleutherópolis, a moderna Beit-gibrin.
Como Amós, Miquéias era natural do campo. Em geral existe mais religião no lar do campo do que no da cidade. Aparentemente Miquéias não gostava da cidade (Mq. 1:5;5:11;6:9).
III - Personalidade - Miquéias deve ter tido uma personalidade muito forte. Era um homem valoroso e de fortes convicções. O segredo de sua força está revelado em Mq. 3:8: “Mas eu estou cheio do poder do Espírito do SENHOR, e de juízo e de força, para anunciar a Jacó a sua transgressão e a Israel o seu pecado”. Como um verdadeiro patriota e pregador fiel, ele denunciou vibrantemente o pecado e assinalou o local da vinda de Cristo. Ele foi, antes de tudo, um profeta dos pobres e um amigo dos oprimidos. Sentia a mesma paixão de Amós pela justiça e tinha o mesmo coração amoroso de Oséias. Miquéias era um Amós redivivo. Sua grande sinceridade contrasta notavelmente com os lisonjeiros ensinos de seus contemporâneos, os quais, como falsos profetas, idealizavam as mensagens conforme os seus soldos (Mq. 3:5).
IV - Seu tempo - Conforme o título do seu livro, Miquéias profetizou “nos dias de Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá” (Mq. 1:1). Esta é uma data amplamente confirmada por evidência interna e também por Jeremias 26:18, o qual cita Miquéias 3:12. Foi, portanto, um contemporâneo de Isaías. Ele deve ter pregado tanto antes como depois da queda de Samaria (722 a. C) e muito provavelmente desde cerca de 735 até 715 a.C. Ele pregado por mais de 40 anos.
Sob o reinado de Jotão, o luxo era esplêndido. Sua ambição de construir fortalezas e palácios em Jerusalém custou a vida de muitos camponeses. Sob o reinado de Acaz, Judá foi obrigada a pagar tributos à Assíria, tributos que juntamente com o custo da guerra sírio-efraimita, em 734 a.C., caíram como uma pesada carga sobre todas as classes. Tanto os ricos como os pobres sofreram. Os arrendatários egoístas e avarentos usavam o seu poder para oprimir, confiscando os bens dos pobres e até mesmo expulsando as viúvas de suas casas. Todo tipo de crimes era perpetrado, com os ricos devorando as classes humildes, “como ovelhas comendo a erva”. Sob Ezequias, que procurou reformar o estado, as condições se tornaram ainda mais desesperadoras. Os homens deixaram de confiar uns nos outros, enchendo Jerusalém de facções e intrigas. Os conselheiros do rei se dividiram na política, alguns advogando uma aliança com o Egito contra a Assíria e outros advogando uma submissão à Assíria. Os encarregados da lei abusavam de seus poderes. Os nobres roubavam os pobres. Os juízes aceitavam suborno. Os profetas adulavam os ricos e os sacerdotes ensinavam em troca de remuneração (Cap. 2). A cobiça das riquezas imperava de todos os lados. Os tiranos opulentos se enganavam quanto a um possível juízo. Em semelhante crise apareceu Miquéias, procurando conduzir a nação de volta a Deus e aos seus deveres.

V - Mensagem - A mensagem de Miquéias suplementou a de Isaías. Miquéias um rústico e Isaías era um estadista, Miquéias um evangelista e um tipo de ‘sociólogo’. Isaías tratou das questões políticas, Miquéias quase exclusivamente da religião pessoal e da moralidade social. Ele era mais democrático do que Isaías. Suas relações pessoais não eram com o rei, mas com o povo. Era um profeta do povo. Isaías ensinou a inviolabilidade de Sião, Miquéias predisse a sua destruição (Mq. 3:12). A nobreza tinha um conceito equivocado de Deus, imaginando que, por serem pessoas respeitáveis, o castigo era impossível. E como argumento indagavam: “Não está o Senhor no meio de nós?” Completando: “Nenhum mal nos sobrevirá” (Mq. 3:11).
Miquéias possuía idéias avançadas sobre o reino de Deus e elevou muito alto o modelo da religião e da ética, conforme Mq. 6:8: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?” Toda a sua mensagem poderia ser expressa nesta declaração: “os que vivem de modo egoísta e luxuoso, mesmo que ofereçam sacrifícios dispendiosos, aos olhos de Deus são vampiros que sugam o sangue vital dos pobres”.
VI - Análise - Apesar da fórmula “OUVI”, repetida três vezes (Mq. 1:2; 3:1 e 6:1-2), a qual introduz as três principais seções do livro, a melhor divisão do material, conforme o caráter dos assuntos, é como segue: Caps. 1-3 - Juízo; Caps. 4-5 - Consolo; Caps. 6-7 - O caminho da salvação.
Caps. 1-3 – Denúncia severa e completa condenação. Estão cheios de repreensões apaixonadas contra os oficiais do templo e do estado, acompanhadas de trovões de juízo, admoestação e ameaça, até que as censuras do profeta se tornam desagradáveis e os que as escutam ordenam que se cale (Mq. 2:6). Miquéias foi o primeiro entre os profetas a ameaçar Jerusalém com a destruição (Mq. 3:12). Contudo, a sorte do restante da nação foi clara e distintamente resguardada da sorte da capital. Suas ameaças, felizmente, foram seguidas de promessas de restauração.
Caps. 4-5 - Vislumbres da glória vindoura, com promessa se salvação, incluindo esperanças messiânicas e escatológicas. Miquéias olha para trás do mesmo modo como contempla o futuro. Como sempre acontece no Velho Testamento, sua visão do futuro está alicerçada nos feitos do presente. No livramento vindouro de Judá (como de Senaqueribe, 701 a.C.), Miquéias vê o futuro triunfo da justiça. Dois quadros se apresentam em sua mente - a exaltação de Sião e o nascimento do Messias, em Belém.
a) Mq.4:1-5 - fazem uma descrição de Sião destinada, conforme ele vê, a se tornar a metrópole espiritual do mundo inteiro (sob a soberania do Deus de Israel), com as nações aceitando a lei do Senhor como o seu árbitro, um tempo de paz universal. Israel será supremo no que toca à religião. A idade áurea, por tanto tempo ansiada, tornar-se-á uma realidade.
b) Mq.5:2 e seguintes - profetizam que o Messias haveria de nascer em Belém, como Davi. Isaías 7:14 havia predito: “...Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel”. Miquéias prediz o seu nascimento numa vila. Setecentos anos depois, no reinado de Herodes, o Grande, os magos que procuravam o local, com a ajuda dos rabinos judeus, obtiveram desta passagem a direção para prosseguir sua viagem (Mateus 2:1-6).
Caps. 6-7 - A controvérsia de Javé, diálogo sumamente dramático, que vindica a providência de Javé. O povo enxerga Deus como um Senhor austero, avarento e exigente, o qual procura submetê-lo a requisitos injustos. Eles querem saber quando Deus ficará satisfeito. Por meio de métodos cruéis e equivocados, os judeus tentam apaziguar a ira divina, oferecendo os frutos do seu ventre pelos pecados de suas almas (Mq.6:7). Javé lhes responde na que é considerada uma das maiores passagens do Velho Testamento: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus” (Mq. 6:8). O profeta prossegue fazendo, com grande ênfase, uma das mais amargas críticas a uma comunidade comercial que se encontra em toda a literatura, denunciando: “a medida escassa” (Mq. 6:10) e os pecados sociais da nação, os quais estão empurrando todo o povo, irremediavelmente, para a destruição (Mq. 6:15-16). Nesta seção, todas as classes, e não somente os líderes, como nos caps. 1-3, e todo o povo comum é denunciado como sendo mau. Não existe homem bom (Comparar com Romanos 3:10-18). “O melhor deles é como um espinho...” (Mq. 7:4). O profeta termina com uma lindíssima oração, como uma nobre apóstrofe a Javé, o incomparável Deus do perdão e da graça (Mq. 7:7-20).
VII - Os três grandes textos de Miquéias
1. Mq. 3:12: “Portanto, por causa de vós, Sião será lavrada como um campo, e Jerusalém se tornará em montões de pedras, e o monte desta casa como os altos de um bosque”. Este texto é a chave e o clímax da mensagem do profeta, famoso por ter sido lembrado depois de um século, o que possibilitou a salvação da vida de Jeremias: “Então disseram os príncipes, e todo o povo aos sacerdotes e aos profetas: Este homem não é réu de morte, porque em nome do SENHOR, nosso Deus, nos falou” (Jr. 26:18). Muito raramente um profeta do Velho Testamento cita outro. Evidentemente, a reforma de Ezequias pode ter sido animada, até certo ponto, por Miquéias (Comparar com 2 Reis 18:4).
2. Mq. 5:2 : “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. Miquéias foi o primeiro entre os profetas a fixar os olhos em Belém, como sendo o local do nascimento do futuro Libertador. Ele seria um servo. Não iria nascer ali na capital, ignorando todas as necessidades rurais, irmão dos patrícios. Seria um homem de origem humilde, participante das cargas dos pobres - de fato, um Libertador dos pobres. Miquéias, o profeta dos pobres, previu um Messias dos pobres.
3. Mq. 6:8 : “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus? “ Este verso é o lema escrito no Departamento de Religião, no salão de leitura do Congresso de Washington. Contém os três maiores requisitos da verdadeira religião, isto é, fazer justiça, usar de misericórdia e andar humildemente. Ele resume nestas três fases todo o ensino da religião hebraica. A simplificação da religião sempre foi a vocação do profeta. Davi reduziu - como sugere o Talmude - os 613 mandamentos do Pentateuco ao que está no Salmo 15. Miquéias os reduziu a três. E Jesus os reduziu a dois: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento... Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:37,39). Comparem estas passagens com Tiago 1:27.
a) Fazer justiça - a justiça na Bíblia é reconhecida como a moral elementar. Ela é a base de todo o caráter moral, a qualidade essencial de um homem bom. É um dos atributos de Deus. Ela significa dar aos semelhantes tudo quanto estes têm o direito de esperar. De preferência a justiça ideal do profeta é a eterna Regra de Ouro citada por Jesus em Mateus 7:12: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lhos também vós, porque esta é a lei e os profetas”.
b) Amar a bondade (hesed), a compaixão e a misericórdia - Esta é a palavra favorita de Oséias e expressa uma qualidade mais elevada que a mera justiça. Muitos cumprem esta deixando de cumprir aquela. A misericórdia inclui a bondade. Às vezes a justiça denota uma dúvida, enquanto a bondade sempre denota graça e favor. É a bondade que, realmente, garante a prática da justiça. Quando alguém não ama um princípio ele faz o possível para evitar a sua aplicação. A verdade é que a pessoa que faz o bem sem amar não é uma boa pessoa. Ela até finge que é boa, mas deixaria de fazer o bem, se isso lhe fosse possível. Deus deseja menos dos outros do que de nós mesmos.
c) Andar humildemente - Este terceiro requisito é uma conseqüência dos dois anteriores. Não se pode obedecer aos dois primeiro sem obedecer ao terceiro (Amós 3:3: “Porventura andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?”) Andar humildemente significa render-se à pessoa, “inclinando-se para baixo”, como o fazem as crianças. A humildade é o maior adorno da religião.
Estes três requisitos: a justiça, a misericórdia e a humildade - a honestidade, a magnanimidade e um coração manso - são, conforme Miquéias, as três coisas essenciais de uma vida religiosa. O Cristianismo não as modifica perceptivelmente e dá-lhes uma aplicação mais ampla e profunda. Só que Miquéias deixa de nos falar do poder de Deus, a fim de podermos cumprir esses requisitos. Somente na cruz poderemos encontrar o caminho.
VIII - Estilo - Vivência e ênfase, relâmpagos de indignação pelos males sociais, rápidas transmissões de ameaça, de misericórdia, emoção veemente e simpática ternura. A força, a cadência e o ritmo retóricos, muitas vezes elevados e sublimes. São estas algumas das características mais notáveis do estilo literário do profeta. Ele escreveu em excelente Hebraico. Tanto os seus pensamentos como a sua linguagem justificam sua pretensão de falar com o poder e a inspiração de Javé: “Mas eu estou cheio do poder do Espírito do SENHOR, e de juízo e de força, para anunciar a Jacó a sua transgressão e a Israel o seu pecado” (Mq. 3:8).

domingo, 17 de maio de 2009

Profetas Menores: Naum

Naum, o Poeta

I - Nome - Praticamente nada se sabe do profeta, com exceção do seu nome e, mesmo assim, esse nome não é mencionado em nenhuma outra parte da Bíblia, exceto na genealogia de José, o suposto pai de Jesus (Lucas 3:26). Como muitos outros profetas, Naum é apenas uma voz. Sem dúvida o nome que ele levou tem a sugestiva significação de um “Consolador”.
II - Lugar de Nascimento - Ele é apresentado como “Naum, o elcosita”, frase que, provavelmente, tem como base designar o seu local de nascimento. Compare-se com “Elias, o tesbita” (1 Reis 17:1)
III - Seu tempo - A data de Naum é indicada com bastante clareza em Naum 3:8-10, versos que tratam da queda de No-amón, isto é, Tebas, no Alto Egito, conforme já verificado, e de Nínive, como coisa preste a se realizar. A primeira foi capturada por Assurbanipal, em 663 a.C., e a última por Nabopalassar, em 606 a.C., ou então, conforme foi recentemente descoberto, em 612 a.C. O período do profeta, portanto, estaria dentro desses limites.
Assurbanipal era extremamente cruel. Ele até se jactava de sua violência e de suas atrocidades, como arrancar os lábios e os membros dos reis, tendo forçado três governantes de Elam, capturados, a puxar seus carros pelas ruas, compelido um príncipe a levar pendurada ao pescoço a cabeça decapitada do seu rei, e de como ele e sua rainha comiam no jardim com a cabeça de um monarca caldeu, a quem obrigara a suicidar-se, pendurada numa árvore sobre eles. Nenhum outro rei da Assíria se jactava de barbaridades tão desumanas e atrozes. Conta-se que ao rumar para o Egito em uma de suas expedições, vinte e dois reis lhe tributaram homenagem. Ali chegando, tanto em Memfis, capital do Baixo Egito, como em Tebas, capital do Alto Egito, eles foram roubados e cruelmente castigados. O pobre povo de Judá e Jerusalém foi expectador de todas essas barbaridades. Em verdade eles já haviam presenciado, por várias gerações, uma sucessão interminável de invasões assírias à Palestina. Salmanasser II, em 842 a.C.; Tiglate-Pilesser, em 734 a.C.; Salamasser IV e Sargão II, em 724-722 a. C.; Senaqueribe, em 701. Esaardon, em 672, e agora Assurbanipal. E parecia que o pior ainda estava por vir. Parecia que Naum e seus compatriotas em Jerusalém estavam atados e impotentes nas mãos de um inimigo cruel e tirano (Naum 1:15-2:2). Nínive ainda se achava no ápice da glória (Naum 3:16,17). Pelo tom da profecia, podemos deduzir com razão que a destruição de Tebas era um evento relativamente recente e que a queda de Nínive ainda não havia acontecido, embora profeticamente próxima. Por isso a data exata do ministério de Naum provavelmente não foi antes de 650 a.C.
Se assim foi, na certa o profeta exibiu um ousado vôo de fé, declarando a segura destruição de Nínive, quando a nação ainda não mostrava sinal algum de declínio. Outras datas propostas para as atividades de Naum, tais como a do reinado de Ezequias, ou Joaquim, ou Zedequias, não estão seguramente atestadas pelos eventos históricos. Porém, seja qual for a data correta do profeta, os anais assírios não deixam dúvida de que por toda a história da nação os assírios sempre foram cruéis, violentos e bárbaros, sempre jactando-se de suas vitórias, regozijando-se de que “já não havia espaço para tantos cadáveres”, de que “fizeram pirâmides de cabeças humanas” e de que “cobriam colunas com as peles de seus rivais”. Foi sobre um povo assim que Naum foi ordenado a pronunciar a destruição inexorável.
IV - Nínive - A cidade ficava no lado oriental do Tigre, em frente à moderna povoação de Mosul. Foi fundada por Ninrode de Babilônia (Gênesis 10:11) e dedicada especialmente à deusa Istar. Era a capital dos reis da Assíria, de 1100 até 880 a.C., e em seguida, novamente, depois que Senaqueribe tornou-se rei, em 705 e seguintes a.C. Era considerada, de fato, como a cidade principal do império.
Nínive era três vezes fortificada por muros e fossos, fortalezas e torres, tendo seus muros 12 Km de circunferência, sendo tão largos que sobre eles podiam trafegar 3 carros, lado a lado. Era essa Nínive a capital da raça de homens provavelmente mais sensuais, ferozes e diabolicamente atrozes que já existiram no mundo inteiro. Eram grandes sitiadores de homens, gritando continuamente: “sítio, sítio, sítio!” Contudo, Naum declara que esses mesmos sitiadores do mundo seriam no final sitiados (Naum 3:1 e seguintes). As ameaças de Naum foram cumpridas de maneira extraordinária. Esaradon foi o último rei de Nínive. Os medos com os babilônios e outros derrubaram em primeiro lugar todas as fortalezas existentes ao redor da cidade (Naum 3:12) e em seguida sitiaram a cidade. Os ninivitas proclamaram um jejum de cem dias, tentando apaziguar os seus deuses (Ver Jonas 3:15), mas apesar disso, a cidade caiu. Kitesias descreve como a cidade sitiada passou sua última noite em orgias e bebedeira, seguindo o exemplo do rei efeminado (Naum 1:10; 2:5). Para precipitar a catástrofe, o Tigre transbordou, abrindo brechas nos muros, quando o rei, ao constatar a iminente ruína da cidade, queimou-se vivo dentro do palácio (Naum 3:15-19) e a cidade foi saqueada de todos o seu rico despojo, em seguida (Naum 2:10-14). Nínive caiu em cerca de 611 a.C. Sua destruição foi completa. Na atualidade nada mais resta da antiga cidade, além das grandes montanhas chamadas Konyunjik e Nebi-Yunis. Tão completa foi em verdade a ruína de Nínive que Alexandre, o Grande, por ali passou “sem saber que um império universal estava sepultado sob os seus pés”. Luciano escreveu: “Nínive pereceu e não ficou um rastro sequer de onde existira antes”.
IV - Conteúdo - As profecias de Naum correspondem naturalmente a três grandes divisões: 1. - Capítulo 1 - Um canto de triunfo sobre a queda iminente de Nínive, um canto sublime. 2. - Capítulo 2 - O juízo que virá: “a guarda dos leões” da cidade será destruída; a defesa é impossível. 3. - a iniqüidade da cidade: sua crueldade e avareza, sua diplomacia desonrada, sura prostituição e sua traição. Por isso, diz o profeta, Nínive há de cair totalmente, sob os aplausos das nações, nada restando para a consolar. O poeta parece regozijar-se muito com essa destruição.
V - Forma poética - Conforme sua estrutura poética o livro pode ser dividido em oito versos de tamanho quase igual.
1. - Capítulo 1:2-6 - Uma descrição de Javé vingador, o qual não deixará impune o crime.
2. - Capítulo 1:7-12 - Para ser fiel ao seu povo, Javé precisa destruir Nínive.
3. - Capítulo 1:13 a 2:2 - O livramento prometido a Judá e o juízo prometido a Nínive.
4. - Capítulo 2:3-8 - Uma serie de brilhantes descrições da captura da cidade; fora, os inimigos brandindo gloriosamente suas armas, carros correndo pelas ruas, brilhando como relâmpagos. Contudo, ai, ai, ai, tarde demais! As portas foram abertas e seus guerreiros deram as costas, fugindo às pressas. A rainha foi feita cativa e suas donzelas se lamentavam, batendo no peito.
5. - Capítulos 2:9 a 3:1 - Os habitantes se enchem de grande terror: de “joelhos trêmulos”. A cidade sanguinária, antes cheia, agora é saqueada.
6. - Capítulo 3:2-7 - Novos carros correm contra a cidade condenada. Nada os atrapalha, exceto as montanhas de cadáveres que enchem as ruas da cidade. A desavergonhada rameira está prostrada e desnuda.
7. - Capítulo 3:8-13 – Assim, No-amón se rendeu; assim também terá de fazê-lo Nínive. Não há como escapar.
8. - Capítulo 3:14-19 - A resistência será em vão. Como a locusta devoradora, virão os inimigos de Nínive. De fato, seu rei já pereceu e o seu povo se encontra esparso como ovelhas sem pastor. Ao ver a sua queda, as nações se regozijam.
Quanto à forma poética, o livro de Naum é um dos mais lindos de todo o Velho Testamento. Nenhum outro profeta, exceto Isaías, pode-se dizer que se iguala a Naum em arrojo, ardor e sublimidade. Suas descrições são sumamente vivas e impetuosas. Sua linguagem é forte e brilhante, seu ritmo tem o estrondo do trovão, saltando e brilhando como um relâmpago, quando ele descreve os homens a cavalo e os carros. Por consenso geral, Naum é considerado um dos mestres do estilo hebraico. Sua excelência suprema não é a emoção, mas o poder de descrição, o qual, pelo seu indômito vigor e cor resplandecente, pelo expressivo e dramático de sua fraseologia, jamais foi superado.
VII - Mensagem - O profeta realmente resume a sua mensagem em Naum 1:7-9. Ele é preeminentemente um profeta que tem uma só idéia - a destruição de Nínive. Convencido de que Javé, mesmo sendo tardio a irar-se, não deixará de se vingar dos seus adversários, Naum projeta a luz do governo moral de Deus sobre Nínive, entoando o canto fúnebre do opressor maior do mundo. É o castigo do Senhor, por tanto tempo adiado, mas que é seguro e será completo e final.
Naum se diferencia notavelmente dos seus predecessores, bem como dos seus contemporâneos - Jeremias e Sofonias - os quais visavam primeiramente a reforma de Israel. Em vez disso, o estribilho ou refrão de sua mensagem é uma certa forma de ardente indignação, expressando os sentimentos reprimidos dos seus compatriotas, os quais têm sofrido perseguições durante gerações, sentimentos que agora crepitam como chamas de fogo sobre o inimigo nacional de Israel. É a humanidade ultrajada que desperta e pede vingança. Duas vezes se escuta o refrão que diz: “Eis que eu estou contra ti, diz o SENHOR dos Exércitos, e queimarei na fumaça os teus carros, e a espada devorará os teus leõezinhos, e arrancarei da terra a tua presa, e não se ouvirá mais a voz dos teus mensageiros” (Naum 2:13 e 3:5).

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Introdução aos Profetas menores : Habacuque


Habacuque, o Pensador

I - Nome e personalidade - Nada se sabe, realmente, a respeito de Habacuque, fora do livro que contém o seu nome. Às vezes até se duvida que o seu nome seja originalmente um nome pessoal ou meramente uma designação simbólica (Comparar com o nome Malaquias). De todos os modos é uma forma singular e poderia haver-se derivado, se é que não foi tomado de empréstimo, da palavra assíria “hambkuku” (uma espécie de hortaliça) ou da raiz “habkak”, cujo significado é “abrasar”. Também pode ser “alguém que luta com Deus”, ou “amado de Deus” ou ainda “consolador do seu povo”. Como Ageu e Zacarias, Habacuque é chamado explicitamente “o profeta” (Hc. 1:1), o que pode dá a entender que foi um homem de Judá e um residente bem conhecido em Jerusalém e, portanto, intimamente familiarizado com a situação política local (Hc. 1:3-4). De todas as maneiras, há suficiente motivo para se crer que Habacuque tenha sido uma das grandes personalidades de sua época.
.
II - Propósito - O único propósito do profeta foi o de predizer a vindoura destruição dos caldeus e assim animar Judá no tempo da crise. Muito apropriadamente o livro começa com o título que descreve o seu caráter: “O peso que viu o profeta Habacuque” (Hc. 1:1). “A palavra ´peso´ [ou “burden” = “carga” na BKJ, ou “sentença” na ARA] prepara o leitor para uma “declaração solene, ou um juízo ameaçador ou uma sentença judicial contra algum inimigo estrangeiro”. Outros profetas em geral começavam expondo os pecados do seu próprio povo, tendo ficado a Habacuque o encargo de enfatizar a violência e os excessos cometidos pelos opressores de Judá - os caldeus.
III - Data - A data das profecias de Habacuque depende da identificação dos caldeus como os tiranos do seu tempo, mais exatamente ao tempo específico em que teria começado a sua carreira de conquistas (Hc. 1:6). Porque não há indicação no livro de que até então ele se houvesse intrometido nos assuntos de Judá. Muitas autoridades assinalam o ano de 604-603 a.C. Nínive havia caído em 606 ou possivelmente antes, por volta de 612 a.C. Nabucodonosor acabara de iniciar a sua célebre carreira de conquistas na Ásia Ocidental. Em Carquemis ele derrotou o Faraó Neco do Egito (605 a.C) e essa vitória mudou a história daquela época. O Egito, que tanto havia molestado Judá, entre 608 e 605 a.C, foi, então, humilhado pelos conquistadores caldeus. Em Judá era grande a ansiedade. A reforma de Josias, em 621, havia sido provada como superficial. A destruição e violência eram perpetradas pelos caldeus nas nações em geral (Hc. 1:6,10,13; 2:5-6). Judá não havia ainda sido invadida, mas o Líbano começara a sofrer (Hc. 2:17) e o inimigo estava cada vez mais próximo, trazendo uma tremenda insegurança à vida de Judá. Todas essas considerações reunidas assinalam uma data pouco depois das batalha de Carquemis, ou cerca de 603 a.C.
IV - Análise e conteúdo - O livro começa com um diálogo entre Javé e o profeta e em seguida narra certos castigos que sobrevirão ao violento opressor da humanidade, concluindo com um lindo poema de confiança em que Deus há de livrar o seu povo. Podemos facilmente dividi-lo em 6 partes distintas e características:
- A queixa do profeta - (Hc. 1:2-4) - a qual começa com um desesperado lamento: “Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! e não salvarás? Por que razão me mostras a iniqüidade, e me fazes ver a opressão? Pois que a destruição e a violência estão diante de mim, havendo também quem suscite a contenda e o litígio. Por esta causa a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta; porque o ímpio cerca o justo, e a justiça se manifesta distorcida “.Até quando” a maldade assediará o justo e frustrará o seu propósito e por que, então, Deus não intervém?
Contudo, naturalmente uma questão se apresenta: “Quais eram os males lamentados pelo profeta nestes versículos?” Seriam internos, isto, é, cometidos pelos hebreus contra os hebreus em Judá? Ou seriam os efeitos funestos de um inimigo que se aproximava ameaçando, de fora, como os caldeus? Existe uma diferença de opiniões, mas em vista do verso 13 é mais natural pensar na última. A iminente invasão ameaçadora dos caldeus produzia atrito, descontentamento e discórdia, depreciando as leis e provocando a anarquia, daí a razão do clamor de Habacuque.
2. - A resposta de Javé - (Hc. 1:5-11). O verso 5 diz: “Vede entre os gentios e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada”, usando um método drástico de levantamento dos caldeus para açoitar o seu povo. Estes versos contêm uma descrição muito gráfica do caráter e das conquistas dos caldeus, aquela “nação amarga e impetuosa, que marcha sobre a largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas”. Nação que despojava os habitantes da terra, reunindo cativos como a areia do mar, zombando dos reis, capturando fortalezas, tomando cidades, a qual ousa divinizar a sua própria potência.
3. - O problema moral do profeta - (Hc. 1:12 a 2:1) - A resposta de Javé, mesmo reforçando a fé do profeta, cria um novo e mais sério problema moral, deixando- o perplexo: “Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR meu Deus, meu Santo? Nós não morreremos. Ó SENHOR, para juízo o puseste, e tu, ó Rocha, o fundaste para castigar. Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar. Por que olhas para os que procedem aleivosamente, e te calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo do que ele?” (vs. 12-13). Não há providência divina! (v. 17). O problema de Habacuque penetra a significação moral da história e da experiência de Israel. É o problema da força dos maus contrastando com a humilhação dos justos. Haverá solução para esse enigma somente quanto aumentar a fé do atalaia. Porque ainda que ele veja o mundo ruindo ao seu redor, de repente é levado de volta a uma crença firme na providência divina: “Sobre a minha guarda estarei, e sobre a fortaleza me apresentarei e vigiarei, para ver o que falará a mim, e o que eu responderei quando eu for argüido” (Hc. 2:1).
4. - A resposta final de Javé - (Hc. 2:2-4). Parado sobre a torre de vigia , Habacuque não precisa esperar muito tempo pela resposta de Javé. Recebe uma visão e lhe é ordenado: “...Escreve a visão e torna bem legível sobre tábuas, para que a possa ler quem passa correndo”. O cumprimento dessa mensagem está no futuro. Por isso Javé exorta: “Porque a visão é ainda para o tempo determinado, mas se apressa para o fim, e não enganará; se tardar, espera-o, porque certamente virá, não tardará” (v. 3). A figura parece ser a de uma cidade entrincheirada contra a invasão do inimigo. O profeta sente que precisa defender um posto, guardar um baluarte. Deste ponto alto até o fim haverá a chave do enigma que o tem feito sofrer por tanto tempo e por ela Habacuque é inspirado a anunciar o grande princípio moral da verdadeira religião, isto é, o orgulho e a tirania não podem, pela sua própria natureza, perdurar. Porém os justos que continuarem fiéis hão de sobreviver: “Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá” (v. 4). Em outras palavras, o futuro pertence aos justos e os que se alimentam de soberba e arrogância não têm futuro algum. Os caldeus são egoístas e por isso estão condenados. Os justo olham para Deus e por isso permanecem.
5. - Uma série de cinco castigos - (Hc. 2:5-20) - Numa série de cinco anátemas, as nações vencidas e escravizadas erguem a voz condenando os opressores caldeus (v. 5). A acusação de Habacuque faz lembrar as que foram proferidas por Naum contra Nínive. O profeta crê que aqueles que os caldeus têm fustigado por eles serão depois açoitados e que a tirania é um suicídio. Que os caldeus são criminosos e que a injustiça conduz, necessariamente, ao declínio de uma nação.
6. – Poema a Javé - (cap. 3) - O terceiro capítulo de Habacuque é um dos mais lindos cantos de louvor do Velho Testamento. É ousado no conceito, sublime no pensamento, majestoso na dicção e puro na retórica1ª. Uma oração na qual roga que Javé avive a sua obra de livramento nesse tempo (Hc. 3:2).
Esse poema, como os capítulos 1 e 2, foi escrito numa época de crise nacional, quando a terra estava sendo ameaçada de invasão (Hc. 3:16). Seu sentimento concorda admiravelmente com o das profecias não disputadas dos capítulos 1 e 2 de Habacuque. Nessas profecias ele começa o mistério da interrogação (Hc. 1:2). No canto ele conclui com certeza e afirmação (Hc. 3:19). O mesmo tom e caráter sublimes se complementam. O canto excede a mensagem do profeta, sendo o propósito de ambos animar e conservar vivo dentro da nação o espírito de esperança e de confiança em Deus. Por conseguinte, ele representa Javé como vindo envolto em tronos e nuvens, a partir de sua morada nas montanhas do deserto, para livrar o seu povo dos inimigos deste. A teofania é somente para a salvação e livramento de Israel (v. 13) [profetizando o que acontecerá, quando o verdadeiro Messias de Israel – Jesus Cristo - vier em toda a sua glória, sobre as nuvens, a fim de libertar o seu povo dos inimigos, na batalha do Armagedom.] O argumento de Habacuque é que Aquele que tão maravilhosamente livra o seu povo na juventude, jamais há de abandoná-lo em anos futuros. Tendo Javé operado a redenção de Javé nos dias de Moisés e dos Juízes, há de voltar a fazer o mesmo, naquela crise atual. Por isso o profeta aguarda uma nova parusia de Javé, uma revelação de sua Pessoa, e uma repentina exposição de sua glória para a salvação do seu povo. E nessa expectação de fé, o profeta conclui com uma absoluta e ilimitada confiança em Deus, afirmando enfaticamente que ainda todos os sinais visíveis do seu amor venham faltar e ele fique reduzido à pobreza e à penúria, mesmo assim ele se alegrará no Deus de sua salvação: “Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado; Todavia eu me alegrarei no SENHOR; exultarei no Deus da minha salvação (vs. 17-18).
V - Ensino permanente - Habacuque se contenta em anunciar apenas uma grande verdade, porém de maneira tão magistral que esta não somente chega a ser o tema do Judaísmo como também do Cristianismo evangélico - a doutrina da justificação pela fé. (Hc. 2:4). Não foram Paulo, Agostinho e Lutero que ensinaram pela primeira vez este grande princípio. Foi Habacuque quem o fez, às vésperas da invasão de Judá pelos caldeus.
Habacuque exorta implicitamente os seus leitores a terem valor e serem felizes. Ele exorta a alma despojada de toda posse exterior a ser valorosa e feliz em Deus, como o único objeto de confiança. Aparentemente isso era inerente e, portanto natural, porque ele possuía uma confiança sempre repleta do gozo de que o Senhor iria trazer salvação ao seu povo.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Os Profetas Menores: Sofonias

Sofonias, o Orador

I - Nome e Genealogia - Outros dois Sofonias, além do profeta, são mencionados no Velho Testamento: um coatita, antepassado de Hemã, o cantor (1 Crônicas 6:36); o outro, um segundo sacerdote, contemporâneo de Jeremias (2 Reis 25:18; Jeremias 21:1; 37:3). Etimologicamente o nome significa “Aquele a quem Javé tem escondido e protegido” (Comparar com o Salmo 27:5), uma significação especialmente apropriada à mensagem do profeta. Com efeito, sua personalidade é demonstrada em sua mensagem. A genealogia de Sofonias, a qual sem dúvida traz detalhes inusitados, como sendo tataraneto de Ezequias, o qual, provavelmente era o rei de Judá, pois de outro modo não haveria motivos racionais para atrasar a sua genealogia em quatro gerações. Que Sofonias pertenceu a um ramo da família real é cronologicamente possível, visto como Manassés, filho de Ezequias, tinha 45 anos quando lhe nasceu o filho Amon (2 Reis 21:1, 19). Nesse caso, Ananias, irmão de Manassés, poderia facilmente ter tido um neto (Cusi) e por isso Sofonias ter tido tantos anos como Josias. Se, pois, Sofonias tinha sangue real, suas censuras sobre os príncipes e outros potentados de Jerusalém (Sofonias 1:8-9) se tornam mais interessantes e muito mais pertinentes. Evidentemente, ele viveu em Jerusalém, conforme indica a sua familiaridade com “a porta do peixe” e o “Morteiro” (provavelmente algum bairro especial de negócios da cidade) (Sofonias 1:11), especialmente a sua referência “deste lugar” (Sofonias 1:4).
II - Período e Data - O título do livro declara que Sofonias profetizou “nos dias de Josias” (639-608 a.C) e com essa declaração o conteúdo do livro está de pleno acordo. Nada existe no livro que justifique a mais débil suspeita de que ele não tenha pertencido a esse período. Sem dúvida, mesmo condenando o povo pela sua idolatria e corrupção, violência e injustiça, a plena verdade é que ele se desprende de toda a história, pois o caráter universal de sua mensagem exclui o trato completo de eventos históricos.
Sem dúvida, se ele profetizou antes do descobrimento do Livro da Lei, no oitavo ano do reinado de Josias, em 621 a.C. (2 Reis 22:8), como crê a maioria dos eruditos modernos, ou depois desse importante evento, como crêem outros, vai depender em grande parte da interpretação que teremos das seguintes referências: 1) – “ o restante de Baal” (Sofonias 1:4), que parecia colocá-lo pelo menos depois do décimo segundo ano de Josias, quando este começou as reformas (2 Crônicas 34:3). 2) - “e os filhos do rei” (Sofonias 1:8). Será que o rei Josias já tinha filhos com apenas 20 anos de idade? (2 Reis 22:1-3). 3) - A ameaça do profeta de que Nínive vai ser destruída e desolada (Sofonias 2:13-15). Sofonias pode ter vivido um pouco antes de Naum. 4) – “fizeram violência à lei”. Esta passagem poderia indicar um tempo depois da reforma de Josias, em 621 a.C. Contudo, Jeremias faz alusão a “os sacerdotes” e à lei, no exato princípio do seu ministério (Jeremias 2:8), sendo que este e Sofonias eram contemporâneos próximos, tendo começado a pregar em 626 a.C. Por isso podemos dizer que Sofonias profetizou provavelmente entre os anos 12 e 18 do reinado de Josias, ou em cerca de 625 a.C.
III - Conteúdo - Três fases distintas podem ser descobertas no livro de Sofonias, quando tratamos do seu único e grandioso tema do Dia (vindouro) de Javé.
1. - Ameaças e Juízos – (Capítulo 1) - Anunciando com juízos e ameaças o dia da ira do Senhor, a qual englobará toda a terra, mas que foi dirigida particularmente aos idólatras e apóstatas de Judá e Jerusalém.
2. - Admoestações dirigidas às nações - (Capítulo 2) Filístia, Moabe, Amon, Etiópia e Assíria. Estas são seguidas de uma fervorosa admoestação contra Jerusalém, para que se arrependa, a fim de escapar do castigo destinado aos pecadores voluntários (Sofonias 3:1-7).
3. - Ânimo e promessas - (Capítulo 3:8-20) - Haverá salvação para os arrependidos, especialmente para o “remanescente de Israel”, o qual gozará de fama universal como o redimido de Javé, morando para sempre em sua presença.
IV - Tema - O grande e único tema de Sofonias é o vindouro “Dia do Senhor”, quando Ele se revelará em sua plenitude ao mundo inteiro, julgando os malfeitores e cumprindo o seu propósito de redenção entre nós. Contudo, o juízo não é considerado por Sofonias como um fim em si mesmo. Antes, ele é um meio de Javé se dar a conhecer ao mundo, iniciando o seu reino de salvação. Portanto, o seu tema é, de um certo modo, escatológico, tratando da “consumação do século”.
Para Sofonias o “Dia do Senhor” não significa tanto um dia de juízo diante do Juiz, como um dia de batalha, um conflito apocalíptico que está para vir. O povo estava “assentado sobre as sua fezes”, isso é, se havia corrompido e tornado egoísta, com a sua vida estagnada no indiferentismo, o qual era pouco melhor que o ateísmo, e por isso a matança e a destruição o esperavam. Os hóspedes de Javé já estão convidados para o grande sacrifício e tudo vai ser queimado. “Um dia de indignação” (Sofonias 1:15). A mensagem de Sofonias pode ter ajudado na reforma de Josias. Pois ele dirigiu os seus golpes contra o sincretismo religioso - uma mistura do culto a Baal, Milcon e as estrelas - exortando o seu povo a buscar a mansidão e justiça, prometendo que, se o fizesse, tudo iria acabar bem.
V - Valor - O livro de Sofonias, mesmo pequeno, é valioso. Muitos deixam de apreciá-lo e a maioria de nós passa desapercebida, como se ele fosse despojado de texto para o púlpito. Ao contrário, ele tem valor permanente e como livro não deve ser subestimado pelo seu tamanho. Aqui temos alguns dos seus ensinos permanentes:
1. - A necessidade constante de admoestação – (Sofonias 1:14-16) - Sofonias deu o exemplo a todos os ministros modernos de como devem relembrar aos homens as terríveis realidades do mundo moral.
2. - O tom moral profundamente sério que permeia todo o livro - Sofonias é profundamente sensível aos pecados do seu povo e à necessidade moral que impele Javé a visitá-lo com disciplina e juízo. Seu evangelho é conciso e austero. Uma mudança moral é necessária (Sofonias 3:7-13).
3. - A natureza espiritual do reino de Deus - (Sofonias 3:14-20) - Esta seção é um dos apocalipses do Velho Testamento. Contém duas promessas maravilhosas: a) - “Javé está no meio de ti” (Sofonias 3:15-17). b) - “Farei de vós um nome e um louvor entre todos os povos da terra” (verso 20), porque depois da tribulação vem a glorificação. O cativeiro de Judá será removido e tudo acabará bem. Judá será salvo ainda que “passando de raspão pelo fogo”.
VI - Estilo - O estilo de Sofonias é direto e forte, portanto de acordo com o caráter imperativo de sua mensagem. O que lhe falta em graça e encanto, até certo ponto, é suprido de vigor e clareza de linguagem. Nenhum outro profeta tornou mais real a descrição do “Dia do Senhor’. A maior parte do livro foi escrita nesse ritmo ou metro elegíaco.
Dizem que se alguém deseja ver as declarações dos profetas sucintamente expressadas, deve ler o curto livro de Sofonias.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Os Profetas Menores: Zacarias

Zacarias, a mensagem através dos simbolos

I - Genealogia e Missão – Na introdução do seu livro lemos que Zacarias era “filho de Baraquias, filho de Ido” (Zc 1:1,7). Entretanto, em Esdras 5:1 e 6:14 é dito que ele era “filho de Ido” e, contudo, trata-se do mesmo profeta em ambas as passagens. Na última é dado a entender que ele foi contemporâneo de Ageu, o que está de perfeito acordo com as datas atribuídas às profecias destes dois profetas, em seus respectivos livros (Ageu 1:1 e 2:10. Zc 1:1,7). Porque a sua missão era em geral a mesma, isto é, induzir o povo a reedificar o Templo. Zacarias, provavelmente, era mais jovem do que Ageu (Comparar Zc 2:4; Ageu 2:3) e um homem de inusitada visão, quase sem paralelo. Sendo sacerdote, bem como profeta (Neemias 12:16) e cabeça da “casa paterna”, sua influência era muito grande. Seu nome, sem dúvida, demonstra dotes especiais, pois em Hebraico significa “Aquele de quem Javé se agrada”.
II - Caráter geral do livro - Existem poucos livros no Velho Testamento tão difíceis de se interpretar como o de Zacarias. Com efeito não é exagero afirmar que de todas as composições proféticas do Velho Testamento, as visões de Zacarias são as mais messiânicas e, por conseguinte, as mais difíceis, visto como estão mescladas e entremeadas de muito do que é apocalíptico e escatológico.
III - Seu tempo - A data mais remota em seu livro é “o segundo ano de Dario”, isto é, de Dario Histaspes, ao que se sabe, 520 a.C., e a mais tardia, “o ano quarto” do reinado deste rei (Zc 1:1,7; 7:1). Contudo, presume-se ser possível que o profeta tenha continuado exortando, pelo menos até que o Templo foi concluído, no ano 516 a.C. (Esdras 6:15). As circunstâncias e condições sob as quais Zacarias trabalhava eram em geral as do tempo de Ageu, visto como este começou justamente dois meses antes de Zacarias (Comparar com Ageu 1:1 e Zc 1:1). Era o ano 520 a.C. Por esse tempo, houve repetidos transtornos e comoções em toda a longitude e latitude do império persa. A declaração de Zc 1:11 de que “... toda a terra está tranqüila e quieta” era verdadeira apenas no sentido de que havia cessado toda a oposição aos judeus quanto à reedificação do Templo. Quando Dario subiu ao trono em 521 a.C., conforme é bem conhecido, muitas das tribos - que haviam sido forçadas a submeter-se ao domínio persa sob Ciro e Cambises - rebelaram-se. Insurreições eclodiram em toda parte do império, especialmente ao noroeste, e Dario teve de lutar 19 batalhas, antes que essas tribos rebeldes fossem subjugadas.
Contudo, as predições de Jeremias a respeito do domínio da Babilônia por “70 anos” haviam se cumprido (Jr 25:11;29:10) e 42.360 judeus haviam regressado a Jerusalém, em 536 a.C., sob a liderança de Zorobabel e Josué. A obra do Templo havia sido iniciada, mas a oposição que os seus vizinhos haviam feito atrasou a conclusão do edifício sagrado, levando os judeus a se desanimarem e se entristecerem por não conseguirem restaurar Sião. Havia muito que os alicerces do Templo foram colocados, mas até ali nada havia sido edificado sobre os mesmos (Esdras 3:8-10 e Zc 1:16). O altar dos holocaustos havia sido erguido sobre o sítio anterior, mas até então não havia sacerdotes dignos de oficiar no ritual do sacrifício (Esdras 3:2,3 e Zc 3:3). O povo havia se tornado apático e era necessário despertá-lo para a obrigação de terminar o santuário. Ageu já os havia animado a prosseguir (Ageu 1:1,15), porém foi deixada a Zacarias a tarefa de fazer com que a reedificação do Templo se tornasse uma realidade. Nisso ele teve êxito, pois a Casa foi concluída “no sexto ano do reinado do rei Dario” (Esdras 6:14,15), ou seja, no ano 516 a.C.
IV - Análise e conteúdo - As profecias de Zacarias normalmente se dividem em duas partes: capítulos 1-8 e 9-14, ambas começando no presente e contemplando, apocalipticamente, o futuro.
1. - Os caps. 1-8 consistem em três mensagens distintas, pronunciadas em três ocasiões separadas.
a) - Os Caps. 1:1-6 - São uma introdução pronunciada no oitavo mês do segundo ano de Dario (520 a.C.). Ela fornece a tônica de todo o livro, sendo uma das apelações mais fortes ao arrependimento e uma das mais intensamente espirituais que se podem encontrar no Velho Testamento.
b) - Os Caps. 1:7 a 6:15 - Mostram uma série de oito visões simbólicas de noite, seguida de uma cena de coroação. Ela foi toda pronunciada no dia 14 do undécimo mês do segundo ano de Dario, ou seja, exatamente dois meses após a colocação dos alicerces do Templo (Ageu 2:18; Zc 1:7). Essas oito visões tiveram como objetivo animar a colônia que havia regressado do cativeiro a continuar e completar a construção da Casa de Deus, dando, respectivamente, as seguintes lições:
b-1 - Os mensageiros celestiais (Zc 1:7-17) - mostrando o cuidado especial de Deus pelo seu povo, o qual afirma explicitamente: “Nela [Jerusalém] será edificada a minha casa” (Zc 1:16)
b-2 - Os quatro chifres e os quatro carpinteiros - (Zc 1:18-21), ensinando que os inimigos de Israel finalmente terão sido destruído por meio de guerras e que não haverá oposição à construção da Casa de Deus.
b-3 - Um homem que tinha na mão um cordel de medir - (cap. 2) - ensinando que Deus voltará a povoar e proteger Jerusalém e nela habitará, fazendo com que a cidade se estenda, até se tornar uma metrópole sem muros ao seu redor. De fato, o próprio Javé será a glória no meio dela, com um muro de fogo ao seu redor.
b-4 - Josué, o sumo sacerdote, vestido de vestes sujas (levando os seus próprios pecados e os do seu povo - cap. 3) - ensinando que o sacerdócio será purificado, continuado e tornado mais típico do Messias, o varão que há de vir, em cujo dia a iniqüidade da terra será completamente aniquilada.
b-5 – O castiçal de ouro e as duas oliveiras - (cap. 4) - Ensinando que o visível terá de ceder lugar ao espiritual e que pelos “dois ungidos”, isto é, Zorobabel, o leigo, e Josué, o sacerdote (v. 14), arderá a luz divina com esplendor brilhante e que não será “...por força nem por violência, mas pelo meu Espírito” (v.6) que esta Casa realizará o seu objetivo [A meu ver, o reinado de Cristo sobre o mundo inteiro! Maranata!]
b-6 - O rolo volante – (Zc 5:1-4) - Ensinando que Deus tem pronunciado em sua lei uma maldição contra a iniqüidade e que Ele “pensa” em destruir todos os pecadores.
b-7 - (Zc 5:5-11) - Descrevendo a iniqüidade como personificada e levada longe demais, até a terra de Sinear, dizendo que quando o Templo for reedificado, o pecado será realmente excluído da terra [Isso só pode referir-se de fato ao reinado do Messias Jesus Cristo].
b-8 - Os quatro carros - (Zc 6:1-8) - Saindo da presença do Senhor de toda a terra e ensinando que a providência protetora de Deus estará sobre o seu povo e o seu santuário, mesmo quando os muros da cidade necessitem de um Neemias para os reconstruir.
Esses versos são seguidos de uma cena de coroação (Zc 6:9-15), na qual o sacerdote Josué é coroado e feito Messias - Varão, Sacerdote e Rei. Este é o retrato mais perfeito e completo do Messias vindouro, do qual se fala em todo o Velho Testamento.
c. - Os caps. 7-8 - São a resposta de Zacarias à comissão de Betel sobre o jejum, pronunciada no quarto dia do nono mês do quarto ano de Dario, ou seja, 528 a.C. Desde a queda de Jerusalém, em 586 a.C., os judeus haviam se acostumado a jejuar nos aniversários de quatro notáveis acontecimentos de sua história: 1. - Quando Nabucodonosor ocupou Jerusalém, no quarto mês (Jr 52:6). 2. - Quando o Templo foi queimado, no quinto mês (Jr 52:12). 3. - Quando Gedalias, o governador, foi assassinado, no sétimo mês (Jr 41:1-2). 4. - Quando começou o sítio a Jerusalém, no décimo mês do nono ano de Nabucodonosor (2 Reis 25:1).
Em sua resposta à comissão de Betel, diz enfaticamente o profeta que “os jejuns de Israel serão como festas, muitas nações se unirão aos judeus, a fim de buscar o Senhor dos Exércitos em Jerusalém” (Zc 8:18-23).
d. - Os caps. 9-14 – constituem a segunda parte do livro e são “o peso da palavra do Senhor contra a terra...”, oráculos sem data.
d-1 - Os caps. 9-11 - São um oráculo de promessa com relação à nova teocracia. Em geral esta seção contém promessas de uma terra onde morar, uma volta ao cativeiro, a vitória sobre uma potência hostil universal [Roma], e também bênçãos temporais e força nacional, concluindo com uma parábola de juízo causado pela apostasia de uma parte de Israel contra Javé e o seu pastor. Mais especificamente, no cap. 9, essas promessas se destinam a um Judá e a um Efraim restaurados, unidos e tornados vitoriosos sobre os seus inimigos, prometendo-lhes uma terra e um rei. No cap. 10, Israel há ser salvo e fortificado. No cap. 11, Israel há se de ser castigado por abandonar o cuidado especial com Javé.
d-2 - Os caps. 12-14 - contêm um oráculo que descreve as vitórias da nova teocracia e o Dia (vindouro) do Senhor - Esta seção é enfaticamente escatológica e apresente três distintas descrições apocalípticas. No cap. 12, de como Jerusalém será sitiada pelos inimigos, mas salva pela intervenção de Javé. No cap. 13, Zacarias fala de como um remanescente será salvo. No cap. 14, vemos como as nações, após terem sitiado e ocupado a cidade, correrão até Jerusalém, a fim de se unirem na guarda e no gozo da Festa dos Tabernáculos. E de como todos, naquele tempo, até mesmo “sobre as campainhas dos cavalos”, “todas as panelas em Jerusalém serão consagradas ao Senhor dos Exércitos”, sendo toda esta seção uma visão apocalíptica de juízo e redenção.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Introdução aos Profetas Menores: Ageu

Ageu, o Profeta da Construção do Templo

I - História pessoal - Pouco se sabe a respeito de Ageu, além do fato de ter sido ele o primeiro profeta da recém-estabelecida colônia judaica, formada pelos que regressaram da Babilônia à Palestina, em 536 a.C. Tanto em seu livro como em Esdras 5:1, ele é apresentado simplesmente como “Ageu, o profeta”. De Ageu 2:3 deduz-se que ele já era um ancião, quando profetizou, tendo provavelmente entre 70 e 80 anos de idade. Em todo o caso, parece que tinha mais idade do que Zacarias, pois quando os seus nomes aparecem juntos, Ageu é sempre mencionado em primeiro lugar (Esdras 5:1;6:14). Uma tradição antiga declara com certeza que ele nasceu em Jerusalém, tendo sido levado cativo por Nabucodonosor, e que lhe foi permitido por Ciro o regresso à Cidade Santa.
As versões gregas, latinas e siríacas associam o seu nome ao de Zacarias, no princípio de certos salmos, como o seu provável autor. Possivelmente ele também foi um sacerdote (Ageu 2:10-19). Segundo a tradição judaica ele era membro da Grande Sinagoga.
Seu nome em Hebraico tem uma raiz descritiva de movimento excitado e rápido, tal como a dança. Daí se pode deduzir ter ele nascido em algum dia de festa. Os nomes hebreus eram às vezes formados dessa maneira. Por exemplo, “Barzilai” significa “homem de ferro”, oriundo de “Barzil” = ferro. Por outro lado, é possível que o nome “Hagga” seja uma contração de “Haggiah”, significando “Festival de Javé” (1 Crônicas 6:30). Assim como “Matenai” é uma contração de “Mataniah” (Esdras 10:26,33). Também o seu nome pode ser uma contração de “Hagariah” (Javé se move), bem como “Zaqueu” é uma abreviação de Zacarias.
II - Sua Obra - A reedificação do Templo é o centro de interesse ao redor do qual gira tudo que Ageu prega. Porque sua missão suprema era animar os judeus de Jerusalém a se levantarem para reedificar o Templo de Salomão, destruído por Nabucodonosor em 586 a.C. Nenhum profeta pregou mais direta e fervorosamente aos seus contemporâneos e nenhum outro conseguiu mais êxito. Seu colega mais jovem, Zacarias, também foi chamado a ajudar nessa grande tarefa. A diferença entre eles é que Ageu pregou durante um breve período de crise, enquanto Zacarias anexou profecias espirituais de edificação, para todos os tempos, às suas visões sobre a reconstrução do Templo.
III - Seu período e circunstâncias - Todas as profecias de Ageu (bem como muitas de Ezequiel) estão datadas como pertencentes ao segundo ano de Dario, lá pelo ano 520 a.C. (Ageu 1:1,15;2:10). O livro de Esdras, sem dúvida, dá mais detalhes da história do seu período e obra (Esdras 1:1-4:5;4:24-6:15). Ele nos conta como um segundo êxodo, por assim, dizer, aconteceu em 536 a.C, quando Ciro, rei da Pérsia, deu aos judeus permissão para regressarem a Jerusalém (Ageu 1:1-4) e 42.360 pessoas, sob a liderança de Zorobabel, cabeça civil da comunidade, e Josué, cabeça eclesiástica, regressaram à Terra Santa e se estabeleceram em Jerusalém, e nas povoações vizinhas a Belém, Betel, Anatote, Gabaa e outras partes (Ageu Cap. 2).
O livro de Esdras também nos diz como a permissão de Ciro para reconstruir o Templo transformou-se em letra morta durante anos (Ageu 4:1 e seguintes). Porque, ainda que os colonos judeus houvessem regressado da Babilônia ansiosos e entusiastas, a fim de restabelecer o culto no seu santuário, tendo edificado o altar dos holocaustos sobre o antigo local do mesmo (Ageu 3:2-3), sem dúvida sabemos que eles foram obrigados a desistir do seu término por causa dos ciúmes dos samaritanos, os quais descendiam dos colonos trazidos a Samaria pelo rei Sargão, em 722 a.C (2 Reis 17:24-41), cuja oferta para ajudar na construção havia sido terminantemente recusada (Ageu 4:1-5,24 - Comparar com Ageu 5:16). Por causa disso, o trabalho de reconstrução ficou parado por dezesseis anos. A apatia substituiu o entusiasmo e o sórdido afã de ganhar dinheiro absorveu-lhes o interesse principal.
De fato, parecia que, à medida em que o tempo passava, os judeus até começavam a regozijar-se com a oposição feita à sua tarefa, visto como isso lhes dava oportunidade de construir casas bem trabalhadas para eles mesmos (Ageu 1:4). Porém aconteceram anos de escassez, devido, como Ageu lhes recorda, ao desagrado de Javé (Ageu 1:1-11).

IV - Análise - As profecias de Ageu, por estarem datadas, são facilmente analisadas:
1. - Cap. 1:1-15 - Pronunciada no primeiro dia do sexto mês (setembro), contendo censuras do profeta à indiferença do povo em relação à Casa do Senhor, acusando-o fortemente, em o nome deste. Admoestando ainda por causa da apatia em relação à reedificação do Templo, o que havia feito com que Deus lhe negasse o produto do campo (Ageu 1:10, comparar com 2:16) e exortando-o a “considerar” os seus caminhos (Ageu 1:5-7). O efeito dessa admoestação aberta e comovente foi que, vinte e quatro dias depois, o povo começou a trabalhar (Ageu 1:14,15).
2. - Cap. 2:1-9 - pronunciada no vigésimo primeiro dia do sétimo mês (outubro) contém uma nota verdadeiramente animadora para aqueles, cujas ambições para construir o Templo (o qual seria digno de comparar-se ao de Salomão) corriam o perigo de fracassar. Ao contrário, o profeta lhes assegura que Javé “fará tremer” as nações e as coisas preciosas de todas as nações hão de vir, para aformosear e glorificar o novo edifício (Ageu 2:7-8, comparar com Hebreus 12:26-27).
3. - Capítulo 2:10-19 - pronunciada no vigésimo quarto dia do nono mês (dezembro), exatamente três meses após ter sido relembrada a obra de reconstrução do Templo, contendo o primeiro discurso, uma repreensão ao povo por causa da sua inação e a declaração de que o seu descuido nesse sentido havia contaminado a sua vida moral. Uma parte desse discurso é expressa em forma de parábola (Ageu 2:11,14), por meio da qual é demonstrado como uma só culpa pode conduzir ao vício. Por outro lado, se os trabalhos de reconstrução do Templo se adiantam, Javé voltará a abençoá-los e com boas recompensas há de premiar o seu zelo renovado (Ageu 2:19; Zacarias 8:9-12).
4. - Capítulo 2:20-23 - pronunciada na mesma data do terceiro discurso, anunciando que a catástrofe se avizinha, quando “o trono dos reinos” será transtornado, Zorobabel será estabelecido como o representante da dinastia de Davi, a esperança patriótica de Israel, o vice-regente honrado por Deus - sim, o precioso ”anel de selar” na mão de Javé (Comparar com Jeremias 22:24).
V - Lições permanentes - A mensagem de Ageu, com apenas 38 versos (que se imagina constituírem apenas um breve resumo dos mais importantes discursos do profeta), causou um ímpeto efetivo na causa da reconstrução do Templo, assim como testifica Esdras nos caps. 5:1 e 6:14 do seu livro. O resultado de sua pregação foi uma grande vitória. Porque persuadir todo o povo a fazer sacrifício financeiro e adiar os seus próprios interesses particulares, a fim de construir um santuário público, não era uma tarefa fácil. Porém Ageu o conseguiu e pelo seu êxito tornou-se o verdadeiro fundador do Judaísmo pós-cativeiro. Sua obra serviu de preparação à de Esdras e Neemias.
VI - Estilo – O estilo de Ageu seja menos poético do que o dos seus predecessores. Porque o seu estilo convém admiravelmente à sua mensagem e ao fim proposto. Seu estilo, mesmo conciso e sem adornos, é, ao mesmo tempo, austero e forte. Suas afirmações são breves e agudas, exatamente o que a ocasião exigia para reformar, corrigir e restaurar. Ainda que o manto da profecia tenha caído sobre ele “em forma de andrajos e remendos”, não obstante suas palavras são as de um coração profundamente comovido por uma situação agitada. O seu propósito completa o que lhe falta em estilo. Mesmo usando um vocabulário limitado, repetindo com freqüência as mesmas fórmulas, Ageu é profundamente sério. Deve-se confessar que ele não carece de força, quando exorta, nem de emoção, quando repreende. “A magnitude profética de um poeta é medida, não pelo esplendor literário do seu estilo, mas pela obra que ele executa”.

Introdução aos Profetas menores : Malaquias

Malaquias, o Conferencista

I - Nome do autor - Nada se sabe a respeito da pessoa de Malaquias, fora do livro que leva o seu nome. Como ele foi o último profeta do Velho Testamento, a priori seria de esperar que fosse bem conhecido dos organizadores do Cânon. O fato, sem dúvida, de que o seu nome não é mencionado em outra parte do Velho Testamento, traz dúvidas a alguns estudiosos se Malaquias foi o nome pessoal do profeta. Contudo, a partir de Áquila, Simaco e Teodociano, no século 2 d.C., “Malaquias” tem sido geralmente considerado como um nome próprio. Nenhum dos outros profetas do Velho Testamento é anônimo.
Seu nome significa “meu mensageiro” e corresponde exatamente na forma à expressão “meu mensageiro” em Ml 3:1, comparando-se com Ml 2:7. A partir de um ponto de vista lingüístico, “Malakhi” pode ser razoavelmente considerado como uma abreviação de “Malakhiyah”, cujo significado é “mensageiro de Javé” (Ageu 1:13). Contudo, o nome “Malaquias” pode ter sido apenas um título ou um nome de guerra adotado pelo profeta, em vez do seu nome de nascimento, como se supõe, sendo apenas o nome de sua vocação ao ofício profético. Porque ele, mais do que outro profeta, deve ter sido um herói espiritual para atacar o sacerdócio como o fez. A significação do seu nome é, portanto, expressiva.
O título do seu livro é sugestivo. A frase com que é iniciado “Peso da palavra do Senhor” também se encontra em Zacarias 9:1 e 12:1 e em nenhuma outra parte, nesta exata forma, em todo do Velho Testamento
Talvez por causa disso a melhor significação do nome “Malaquias” seja tomá-lo como um adjetivo equivalente à palavra “Angelicus”, cujo significado é “encarregado de uma missão ou mensagem, portanto um missionário O nome resulta, assim, num título apropriado a alguém, cuja mensagem encerra, por assim dizer, o Cânon profético do Velho Testamento. Finalmente, a identidade do autor não é essencial para a autenticidade de sua mensagem. Em todo o caso, o escritor possuía uma personalidade forte e vigorosa.
II - O período do profeta - O livro guarda silêncio quanto à data de sua composição. Existem várias opiniões (assinalando-se a de Winckler, exatamente o período anterior ao surgimento dos Macabeus), porém, universalmente, se reconhece que o autor foi contemporâneo de Esdras e Neemias, tendo escrito, mais ou menos, em 458 ou 422 a.C. Sellin, sem dúvida, prefere datá-lo de mais ou menos 470 a.C. As condições sociais retratadas são, indiscutivelmente, do período persa. O Templo, que havia sido reedificado e consagrado em 516 a.C., estava de pé e a rotina dos sacrifícios havia continuado a realizar-se, por muito tempo. Evidentemente, os edomitas estavam no desterro, pois haviam sido expulsos de sua pátria, nas montanhas, pelos nabateus, pouco depois da queda de Jerusalém, em 586 a.C. Sérios abusos haviam acontecido na vida dos judeus. Os sacerdotes haviam se tornado relaxados e degenerados. Sacrifícios defeituosos eram oferecidos sobre o altar do Templo, com o povo se descuidando de entregar o dízimo. O divórcio era comum, o pacto com Javé fora olvidado e o povo havia se tornado céptico em relação à sua justiça, duvidando seriamente de sua adoção como povo especial de Javé. Eram estas, como sabemos, precisamente, as condições que prevaleciam, também, no tempo de Neemias (Neemias 3:5; 5:1-13).
Na opinião de muitos, sem dúvida, Malaquias não poderia ter profetizado enquanto Neemias oficiava como governador. Porque em Ml 1:8 ele dá a entender que dádivas poderiam ser oferecidas ao governador, enquanto Neemias nos diz que ele próprio deixara de exigir os tributos oficiais (Neemias 5:15-18). Contudo, como acertadamente observa Elmslie, “uma dádiva para conseguir o favor é uma coisa bem distinta e, além disso, a referência não é pessoal nem local, mas geral e puramente ilustrativa”. Os abusos atacados pelo profeta correspondem, sem dúvida, aos que Neemias procurou corrigir em sua segunda visita a Jerusalém, em 432 a.C. (Neemias 13:7 e seguintes).
O que Malaquias exorta o povo a lembrar-se era da Lei de Moisés, a qual foi lida publicamente por Esdras, no ano 444 a.C. e está em perfeito acordo com esta conclusão, apesar do fato de que alguns, baseando-se na alegada publicação tardia dessa lei, argumentam por uma data mais recente, anterior ao tempo de Esdras (458 a.C.). Outros, até mais sensatamente, atribuem a origem do livro ao período entre as visitas de Neemias a Jerusalém, em 445 e 432 a.C. Contudo, seja qual for a nossa conclusão quanto à exata posição do livro, ele assinala uma época significativa da história religiosa de Israel, durante o reinado de Artaxerxes, rei da Pérsia, o qual reinou de 465 a 425 a.C.
III O estilo do autor- A unidade do ‘livrinho’ de Malaquias (com apenas 55 versos) não se disputa. Ele se contentou em escrever em prosa, mesmo sendo raras vezes prosaico. A expressão “diz o Senhor do Exércitos” aparece 20 vezes. Seu Hebraico é puro e comparativamente livre de “aramaicismos”. É difícil dizer se alguma vez Malaquias pronunciou como sermões o conteúdo do seu livro. Em todo o caso, os elementos substanciais que o compõem estão estreitamente ligados entre si, sendo o livro a obra de um advogado legal e de um racionalista moral, que tinha um plano definido e detalhado para argumentar.
O método literário de Malaquias era o dos escribas, fazendo e respondendo perguntas. A forma do seu livro nos mostra que no seu tempo já não havia paciência com os pregadores proféticos. Ele tem de recorrer ao argumento.
Encontram-se em seu livrinho sete exemplos desse método peculiar de: a) afirmação, b) interrogação; c) refutação. E a expressão “Mas vós dizeis” aparece 8 vezes (Ml 1:2,6,7;2:14,17;3:7,8,13), por exemplo:
1. - “Eu vos tenho amado, diz o SENHOR. Mas vós dizeis: Em que nos tem amado? Não era Esaú irmão de Jacó? disse o SENHOR; todavia amei a Jacó, e odiei a Esaú; e fiz dos seus montes uma desolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto”.
2. - “O filho honra o pai, e o servo o seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome. E vós dizeis: Em que nós temos desprezado o teu nome? Ofereceis sobre o meu altar pão imundo, e dizeis: Em que te havemos profanado? Nisto que dizeis: A mesa do SENHOR é desprezível” (Ml 1:6,7).
3. - “Não temos nós todos um mesmo Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que agimos aleivosamente cada um contra seu irmão, profanando a aliança de nossos pais? Judá tem sido desleal, e abominação se cometeu em Israel e em Jerusalém; porque Judá profanou o santuário do SENHOR, o qual ele ama, e se casou com a filha de deus estranho. O SENHOR destruirá das tendas de Jacó o homem que fizer isto, o que vela, e o que responde, e o que apresenta uma oferta ao SENHOR dos Exércitos. Ainda fazeis isto outra vez, cobrindo o altar do SENHOR de lágrimas, com choro e com gemidos; de sorte que ele não olha mais para a oferta, nem a aceitará com prazer da vossa mão. E dizeis: Por quê? Porque o SENHOR foi testemunha entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal, sendo ela a tua companheira, e a mulher da tua aliança. E não fez ele somente um, ainda que lhe sobrava o espírito? E por que somente um? Ele buscava uma descendência para Deus. Portanto guardai-vos em vosso espírito, e ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidade. Porque o SENHOR, o Deus de Israel diz que odeia o repúdio, e aquele que encobre a violência com a sua roupa, diz o SENHOR dos Exércitos; portanto guardai-vos em vosso espírito, e não sejais desleais” (Ml 2:10-16).
4. – “Enfadais ao SENHOR com vossas palavras; e ainda dizeis: Em que o enfadamos? Nisto que dizeis: Qualquer que faz o mal passa por bom aos olhos do SENHOR, e desses é que ele se agrada, ou, onde está o Deus do juízo?” (Ml 2:17).
5. - “Desde os dias de vossos pais vos desviastes dos meus estatutos, e não os guardastes; tornai-vos para mim, e eu me tornarei para vós, diz o SENHOR dos Exércitos; mas vós dizeis: Em que havemos de tornar?” (Ml 3:7). Aqui Malaquias não perde tempo em responder, por causa da falta de sinceridade na pergunta deles.
6. - “Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas”. (Ml 3:8)
7. – “As vossas palavras foram agressivas para mim, diz o SENHOR; mas vós dizeis: Que temos falado contra ti? Vós tendes dito: Inútil é servir a Deus; que nos aproveita termos cuidado em guardar os seus preceitos, e em andar de luto diante do SENHOR dos Exércitos?” (Ml 3:13-14).
Esse estilo de controvérsia é peculiarmente característico de Malaquias. Ele mostra claramente a influência das escolas e está se encaminhando para o tribunal. Além disso, o seu uso de “ainda” (Ml 1:13 e 2:13) que equivale ao nosso “em primeiro lugar e “em segundo lugar”, é uma evidência adicional ao mesmo efeito. Sem dúvida, apesar da uniformidade mecânica sob a qual ele trabalha, e às abruptas transições que ele faz de um tema para outro, suas profecias são cheias de vigor e força, aplicando verdades antigas com uma originalidade e fervor singulares. Pode-se dizer que o seu livro é o mais argumentativo de todas as profecias do Velho Testamento.
IV - Conteúdo do livro - Malaquias começa com uma declaração clara e definida do tema principal do profeta, isto é, que Javé ainda ama Israel (Ml 1:2-5) e termina com uma palavra de fervorosa exortação para que o povo se recorde da Lei de Moisés (Ml 4:4-6). O corpo do livro é composto de duas extensas polêmicas:
1. - Contra os sacerdotes infiéis que se tornaram descuidados e indiferentes na realização dos cultos no santuário (Ml 1:6 a 2:9)
2. - Contra o povo infiel que começa a duvidar, tanto do amor como da providência de Deus (Ml 2:10 a 4:3). Há dois objetos especiais de sua censura: a maneira indigna com que se observava o culto, do que eram os sacerdotes mais culpados que os outros, e o de se separarem, sob frívolos pretextos, das mulheres judias para se casarem com mulheres pagãs. Por causa disso virá o juízo de Javé. À parte do título ou sobrescrito (Ml 1:1), o livro compreende naturalmente as sete divisões seguintes:
1. - Cap. 1:1-5 - Em que o profeta mostra que Javé ainda ama Israel, porque a sorte de Israel está em contraste muito acentuado à de Edom. Mesmo após ter sido desterrado, Israel foi trazido de volta do cativeiro, tendo sido disciplinado apenas temporariamente. Edom, ao contrário, foi permanentemente expulso de suas montanhas e nunca mais voltará, ficando desterrado irreparável e inexoravelmente.
2. - Caps 1:6 a 2:9 - Uma denúncia contra os sacerdotes e levitas, que se tornaram relaxados em seu ofício sacerdotal, indiferentes à lei, tendo olvidado o pacto com Javé. Seria melhor fechar as portas do Templo, exclama o profeta, do que oferecer semelhantes sacrifícios de maneira tão indiferente. Malaquias prega o arrependimento com intensa seriedade.
3. - Cap. 2:10-16 - Uma severa repreensão ao povo pela sua crassa idolatria e pelo divórcio. Esta seção só pode ser interpretada como apenas metafórica, referindo-se ao abandono de Israel da religião de sua juventude. Ao contrário, é claro que o povo é repreendido por repudiar, literalmente, suas próprias mulheres judias, a fim de contrair matrimônio com as estrangeiras. Esses matrimônios, diz o profeta, não são apenas uma forma de idolatria, mas também uma violação do desejo de Javé de conservar a descendência digna do Senhor. (Ml 2:14-15).
4. - Caps. 2:17 a 3:6 - Um anúncio do juízo vindouro. Os homens haviam chegado a duvidar seriamente da existência de um Deus de justiça (Ml 2:17). O profeta responde com uma linguagem messiânica de grande significação, dizendo que o Senhor a quem o povo busca virá repentinamente em juízo, tanto para purificar os filhos de Levi como para libertar a terra dos pecadores em geral. Sem dúvida, pelo fato de que Javé não muda, os filhos de Jacó serão todos consumidos (Ml 3:6).
5. - Cap. 3:7-12 - No que o profeta se detém para dar outros exemplos dos pecados do povo é que este tem deixado de entregar os seus dízimos e ofertas. Por isso tem sofrido a seca, a locusta e a fome. Contudo, se voltarem a entregar pontualmente as suas ofertas, a terra se tornará “uma terra deleitosa”.
6. - Caps. 3:13 a 4:3 – Uma seção dirigida aos desconfiados da época do profeta. Em Ml 2:17, eles perguntam: “Onde está o Deus do juízo?” Agora eles murmuram: “Inútil é servir a Deus; que nos aproveita termos cuidado em guardar os seus preceitos, e em andar de luto diante do SENHOR dos Exércitos?” Os maus prosperam, assim como os bons (Ml 3:14-15), porém o profeta contesta que Javé conhece os seus e tem um memorial diante dele em favor dos que o temem e dos que se lembram do seu Nome (Ml 3:16). É possível que nisso tenhamos o germe da sinagoga dos tempos posteriores. Porque, quando chegar o Dia do Juízo e os bons forem separados dos maus, os que tiveram praticado iniqüidade serão exterminados. Entrementes, sobre os que tiverem praticado a justiça e temido o nome de Javé, “nascerá o sol da justiça”, trazendo eterna cura em suas asas.
7. - Cap. 4:4-6 - Conclui com uma exortação a que se obedeça a Lei de Moisés, com a promessa de que o Profeta Elias virá para convocá-los ao arrependimento (visto como este nada pode fazer a não ser condenar). É uma confissão tácita da parte de Malaquias de que ele está para cessar o seu ofício.
V - Avaliação da mensagem de Malaquias - Sendo um ardente patriota, sua linguagem era, por conseguinte, clara e, ao mesmo tempo, exigente. O seu primeiro objetivo quando à própria época era o de animar um povo já desencorajado, o qual, como se presume, estava decepcionado porque as predições otimistas de Ageu e Zacarias sobre o reino messiânico não haviam se cumprido. Uma séria reação havia começado, com homens começando a duvidar da providência de Deus. Uma nova reforma se fazia necessária.

VI. - A Vinda do Messias e o seu Reino - (Ml 3:1 e seguintes) - O ensino messiânico de Malaquias é muito resumido. O estabelecimento do Reino de Deus será precedido pelo Dia do Senhor, ocasião de purificar a refinar. O próprio Senhor vai inaugurá-lo: “EIS que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais; e o mensageiro da aliança, a quem vós desejais, eis que ele vem, diz o SENHOR dos Exércitos” (Ml 3:1).
Esse notável anúncio messiânico foi causado pelas dúvidas do povo - se Javé ainda era um Deus de justiça (Ml 2:17). A garantia aqui oferecida - de que estava para surgir uma Idade Áurea - deve ter animado sobremodo os decaídos e a fé vacilante do povo judeu.
Malaquias acreditava muito firmemente que em seu devido tempo viria o Libertador Divino. Por isso ele insiste veementemente com o povo para que este creia em seu próprio futuro. O caráter especial das passagens de Ml 3:14 e 4:2 é formoso.

ISET © 2008. Template by Dicas Blogger.

TOPO